Em São Paulo, o comprador de uma residência premiada queria demoli-la para construir outra, mais parecida com as vizinhas. O caso expõe o que podemos perder quando uma preferência pessoal se sobrepõe ao valor da arquitetura.
Em 2013, uma casa no Jardim Lusitânia, em São Paulo, virou assunto por um motivo desconcertante. Seu proprietário havia comprado o imóvel com a intenção de demoli-lo.
A casa tinha autor, história e reconhecimento. Projetada por Ruy Ohtake para o engenheiro Paulo Bittencourt Filho, havia sido premiada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil. Mas o novo comprador queria construir outra residência no terreno.
À Casa Vogue, Ohtake contou que a família viveu ali por mais de três décadas. Com os quatro filhos crescidos, Paulo e a esposa queriam uma casa menor. Antes da venda, ele procurou o arquiteto.
Essa conversa dá outra dimensão à história. Havia um vínculo entre quem desenhou a casa e quem a habitou. O imóvel chegava ao mercado carregando essa experiência; o interesse do comprador estava na possibilidade de apagá-la.
À Folha de S.Paulo, o novo proprietário explicou parte de seu incômodo.
“Ela destoa do resto da rua, as casas são neoclássicas”.
A frase merece uma pausa.
Uma das qualidades mais difíceis de alcançar em arquitetura, ter identidade, aparecia ali como justificativa para o desaparecimento da obra. A casa precisava se parecer mais com as outras para que seu valor fosse reconhecido.
A entrevista à Casa Vogue traz um detalhe decisivo: segundo Ohtake, demolir não permitiria aumentar a área construída, pois a casa já ocupava o limite admitido pelo zoneamento residencial.
Se esse era o limite, a troca pretendida fica ainda mais reveladora. Uma arquitetura reconhecida seria sacrificada para que o terreno recebesse uma aparência considerada mais adequada. O gosto particular passaria a decidir o que a cidade podia perder.
Antes de discutir o estilo da próxima casa, valia compreender a que já estava ali.
Olhe para o interior. As vigas marcam o teto, a caixilharia alonga a vista e o concreto participa da organização do espaço. A arquitetura se revela na relação entre essas escolhas. Trocar uma delas sem compreender as demais pode comprometer o conjunto.
Na resolução de tombamento, essa concepção aparece descrita em seus elementos: a estrutura de concreto aparente, a cobertura nervurada, os pergolados laterais, a organização interna, as esquadrias, os jardins e a piscina. A proteção reconhece uma arquitetura que vai muito além da fachada.
A pesquisadora Sabrina Fontenele descreve os móveis de concreto e o pé-direito baixo dessa residência como parte da intimidade e do acolhimento experimentados pela família. A mesma escala que desagradou ao comprador tinha sentido para quem encomendara a casa.
É aí que o bom gosto pede mais do que uma preferência visual. Exige reconhecer a coerência de uma obra, mesmo quando ela propõe uma maneira de morar diferente da nossa.
Essa capacidade precisa ser cultivada. Nenhum orçamento a fornece automaticamente.
Para o arquiteto brasileiro, esse conflito é próximo. Nem sempre uma intervenção começa por investigar como a casa funciona. Às vezes começa pela lista do que se deseja esconder: o concreto, a escala dos ambientes, uma abertura pouco convencional. Quando tudo o que dá identidade ao projeto entra na lista de correções, é preciso discutir a própria encomenda.
Cabe ao profissional explicar essa unidade. Mostrar o que uma escolha acrescenta e o que ela compromete. Defender uma decisão exige tornar seu valor compreensível para quem vai viver naquele espaço.
ter dinheiro para mudar uma casa não significa compreender o que vale a pena preservar.
“Por que comprou a casa se não gostava dela?”, perguntou Ohtake à Casa Vogue.
A pergunta é incômoda porque antecede qualquer discussão sobre acabamentos. Comprar uma obra para eliminá-la é uma escolha diferente de habitá-la e descobrir o que precisa melhorar. Ainda assim, defender a preservação exige levar a vida doméstica a sério.
Na controvérsia de 2013, o proprietário reclamava do pé-direito, das aberturas e da segurança. O morador que então alugava a casa admirava seu exterior, mas também apontava dificuldades na distribuição interna e na ventilação.
Essas questões fazem parte da discussão sobre habitar uma obra de arquitetura. Uma assinatura importante não torna o cotidiano de seus moradores irrelevante.
É justamente aí que um bom projeto de intervenção pode demonstrar inteligência: investigar o que precisa ser adaptado e reconhecer o que sustenta a identidade da construção.
O desfecho institucional dessa história contemplou essa possibilidade. A casa Paulo Bittencourt Filho foi incluída no conjunto de residências de Ohtake tombado pelo Conpresp em decisão de novembro de 2013. A resolução admite pequenas adaptações aos usos atuais, desde que preservem o conceito dos projetos originais e passem pela avaliação dos órgãos responsáveis.
Preservar exige trabalho. Exige conhecimento dos materiais, cuidado com a execução e disposição para conviver com uma arquitetura que já tem algo a dizer.
Na mesma entrevista, Ohtake defendeu inventários preventivos e incentivos aos proprietários, como isenção de IPTU e apoio à manutenção. Eram propostas do arquiteto para a preservação.
A crítica alcança uma parte menos confortável dessa história. Exigir que alguém conserve um patrimônio implica reconhecer os custos e as responsabilidades envolvidos. É razoável esperar que o poder público identifique as obras relevantes antes de uma venda ou de um pedido de demolição transformar sua proteção em conflito.
O tombamento estabelece limites. Para que a casa continue cuidada e habitada, esses limites precisam vir acompanhados de orientação e de condições de conservação. Celebrar a arquitetura em livros, enquanto sua sobrevivência depende de uma emergência, é uma defesa incompleta.
O caso não autoriza uma classificação preguiçosa dos estilos. Concreto aparente pode resultar em um projeto medíocre. Uma composição clássica pode ter proporção, rigor e beleza. O discernimento está em reconhecer a qualidade concreta de uma obra e as consequências de destruí-la.
Na Rua Dom Henrique, o bom gosto exigia reconhecer uma casa com pensamento, história e valor cultural próprios. Também exigia admitir que ela talvez não fosse a casa certa para aquele comprador. Nem toda incompatibilidade precisa ser resolvida com uma demolição.
Para quem trabalha com arquitetura, essa história deixa uma responsabilidade muito concreta: saber reconhecer, explicar e defender o que merece continuar existindo.
bom gosto começa na capacidade de reconhecer o que merece ficar.